A grama do vizinho

A grama do vizinho

Fulano 1 se formou ano passado em engenharia e já está fazendo viagens de barco em Ilha Bela. As fotos são lindas, o azul parece uma pintura e tudo é #NoFilter! Realmente fez uma ótima escolha de carreira.

Fulana 2 fez faculdade de comunicação com você há dois anos. Arrumou estágio no meio da faculdade, pulou de emprego em emprego e agora está trabalhando em uma das melhores agências do país. Mas ela sempre teve potencial, né? Então nada mais justo!

Fulano 3 não fez faculdade, mas atualmente ganha o triplo do que você ganha. Ele é vegano, posta foto com aquelas camisetas pretas da Smart Fit, mora em Pinheiros e sempre teve facilidade em enxergar oportunidades incríveis! Ele é a prova de que faculdade não necessariamente é o caminho obrigatório.

Fulana 3 era sua estagiária até um ano atrás. Ela está morando em outro Estado e é gerente de uma equipe linda. Sempre postam fotos no happy hour patrocinado pela empresa. Um sonho!

Enquanto isso você está vendo tudo isso no metrô lotado, ganhando uma miséria e com vontade de jogar tudo pro alto. A grama do vizinho é tão verde que você precisa colocar um óculos escuro pra olhar.

O que ninguém fala (porque ninguém posta) é que o Fulano 1 escolheu essa carreira porque os pais obrigaram. Ele queria ter feito faculdade de música e se tornar professor.

Fulana 2 tem crises de ansiedade e toma remédio pra dormir. A última vez que ela saiu pra beber foi há seis meses, num feriado prolongado.

Fulano 3 não consegue se relacionar com ninguém porque simplesmente não dá tempo. A última vez que deu uns beijos foi no Ensino Médio.

Fulana 4 tem o couro arrancado pelo gerente machista toda semana. Ela não usa mais maquiagem porque sabe que vai acabar chorando no banheiro em alguma hora do dia. Só que ela não posta isso.

Vamos parar se ver as redes sociais como realidade. Ninguém posta que a vida está uma merda no Instagram. Um feed feliz é um feed bonito.

Esquece a viagem, o cabelo perfeito, os looks impecáveis, as festas incríveis, o trabalho dos sonhos e tudo que parece vir diretamente de um conto de fadas. Não existe.

O que existe é um monte de gente jogando marca texto na própria grama e dizendo que ela é a mais verde do quarteirão.

Sobre o autor

Teve a ideia de criar o Sobreviva em São Paulo, foi lá e fez. Jornalista, trabalha com social media e gosta de uns rolês roots. Acampa no mato, sobe montanha e vive na selva de pedra. Já quis ser detetive, salvar o mundo e fugir com os ciganos. Tem uma relação de amor e ódio com São Paulo, fica para ouvir músicos de rua e corre para nunca chegar atrasada.

Comentários