Entrevista com Edmund Yeo, cineasta malaio

Entrevista com Edmund Yeo, cineasta malaio

Nascido em 1984 em Singapura, formado na Austrália, agora sediado no Japão. Edmund Yeo é um prolífico cineasta malasiano que começou a escrever e dirigir curtas em 2008, tendo surpreendido público e crítica com seu Kingyo (2009) – que lhe trouxe o título de diretor malaio mais jovem a ser selecionado pelo Festival de Cinema de Veneza.

Com vários de seus filmes excêntricos e oníricos – extremamente pessoais. Distinguidos por um equilíbrio original entre ação e contemplação, abusando de um experimentalismo sóbrio e contido, seus filmes retratam a vida nas margens através de um estilo humilde e profundamente ressonante. Alguns de seus filmes podem ser encontrados em seu Canal no Youtube. Agora na busca de uma relação intercultural em perspectiva  sobre o impacto pandêmico nas artes, em contexto mundial, temos essa interessante conversa.

Edmund Yeo.
Edmund Yeo.

Essa entrevista com Yeo foi feita por e-mail, você lerá à partir da tradução e adaptação de seu texto, levemente adequadas para funcionarem melhor no formato escrito. Texto em inglês mantido se encontra abaixo. Boa leitura.

 

PERGUNTAS:

 

T. Como cineasta, que tipo de narrativas te atraem mais? Quais você prefere contar?

E.Y. Normalmente sou atraído por qualquer gênero de narrativas, desde que me atraiam emocional e pessoalmente. Penso que isto evolui e muda à medida em que envelheço, tenho certeza de que o que me atrai agora não me atrairia há 10 anos, ou o que fiz há 10 anos não seria algo que eu queira fazer agora. É que em diferentes fases da minha vida, tenho diferentes histórias que quero contar. Só gosto de manter as coisas verdadeiras sem ser condescendente para com o meu público.

Por exemplo, por conta das minhas obras serem tão pessoais e influenciadas pela literatura (muitos dos meus curtas e filmes são influenciados por obras literárias), tenho pessoas que me perguntam porque não estou a fazer algo mais “pipocão” ou “comercial”. Não tenho nada contra cinema desse tipo. Como muitos chineses malaios da minha geração, cresci assistindo filmes de ação e comédias de Hong Kong, blockbusters de Hollywood e anime japonês. No ano passado fui assistir os últimos filmes dos Vingadores e Star Wars, nas noites de estreia.

Um dos meus filmes favoritos de todos os tempos é Cidade de Deus. Não é “apenas um filme de gangsters”, mas uma obra-prima cinematográfica que explora uma época específica em um lugar tão distante do meu próprio país, de crescer num ambiente de pobreza e violência, da passagem do tempo. Assisti pela primeira vez quando estava na universidade e fiquei marcado.

Talvez histórias que não aderem teimosamente às convenções de género sejam os filmes que eu quero fazer. É a minha maneira de me rebelar silenciosamente.

T. Quais dificuldades você enfrentou para se tornar um cineasta?

E.Y. Há muitos desafios, ao longo dos anos. As questões habituais de juntar dinheiro para o seu projeto, a luta constante contra a nossa censura draconiana. A falta de apoio público ao cinema local feito por cineastas, ou de financiamento governamental que vai para os projetos errados. Financeiramente, politicamente, culturalmente, é sempre um desafio tentar fazer filmes.

Se a sua pergunta for mais para algo “interno”, digo que se trata mais de tentar manter essa disciplina para continuar trabalhando. Respeito e admiro sempre os cineastas prolíficos, independentemente da qualidade da sua produção. Porque isso só significa que eles estão constantemente trabalhando. Quando é tão difícil conseguir fazer os meus filmes, como posso tentar manter este desejo de criar?

T. Como vê o atual mercado internacional para artistas independentes?

E.Y. Eu digo, o mundo está em constante evolução. De um ponto de vista otimista, o público tem mais acesso às obras de artistas internacionais independentes. Graças à ascensão de plataformas de streaming como Mubi, Netflix, Amazon Prime, é fácil para qualquer pessoa alcançar essas obras. Há muito mais formas diferentes de compartilhar suas obras com as pessoas.


Mas se eu quiser ser pessimista, também posso argumentar que essas obras permanecerão desconhecidas, independentemente da sua localização, enquanto o público de massas permanecer desinteressado ou subexposto a obras de outros países. Se você não souber o que está procurando, é realmente muito difícil ir e procurar essas obras. Essa é a tragédia. As pessoas estão ficando mais curiosas sobre outras obras de artistas independentes? Estarão dispostas a ultrapassar a barreira das legendas? Ou será que, independentemente das ferramentas nas suas mãos, e da informação que conseguem obter, permanecem conservadores com os seus gostos? Portanto, as oportunidades e possibilidades existem. Não tenho a absoluta certeza de que as pessoas estão curiosas o bastante.

T. Você considera o seu trabalho pertinente nos diálogos socioculturais atuais?

E.Y. Yup, espero que sim. Isso também está relacionado com a minha primeira resposta. Não penso que, como artistas ou cineastas, possamos alguma vez viver no vácuo e deixar o mundo passar por nós. Assim, normalmente os filmes que faço são definitivamente uma resposta à situação sociopolítica do mundo que nos rodeia.

T. Você tem em mente uma lista de filmes que o transformaram?

E.Y. Quando criança, o LAPUTA de Hayao Miyazaki. Quando adolescente, CASABLANCA e LOVE LETTER de Shunji Iwai. Na universidade, uma vez rodeado de amigos com pensamentos semelhantes, sou finalmente exposto às obras de Tarkovsky, a Nouvelle Vague, Stanley Kubrick, Almodóvar, Fellini e, como já disse, Cidade de Deus de Fernando Meirelles, digo que me influenciam fortemente ao me mostrarem as possibilidades do cinema. Tão diferente dos filmes que eu cresci assistindo. Enquanto adolescente, nunca compreendi os filmes de Wong Kar-Wai. O único que gostei foi CHUNGKING EXPRESS porque era engraçado. Mas depois de ter sido exposto a todos esses filmes na universidade, revisitei os filmes de Wong Kar Wai e me apaixonei imediatamente.

Quando Edward Yang morreu em 2007, decidi começar a ver os seus filmes, filmes que também abriram os meus olhos.

T. Qual foi o peso do “experimental” na construção do seu pensamento?

E.Y. Está na minha mente o tempo todo. Gosto de experimentar a forma enquanto conto as histórias que quero contar, e tento muito conscientemente evitar repetir as mesmas coisas que fiz em cada filme. Acho que é mais divertido desta forma. Após o sucesso do meu curta-metragem KINGYO, muitos esperavam que eu pudesse fazer mais filmes que estivessem inteiramente em telas divididas, mas eu não quis mais repetir isso. Depois de ter feito o meu primeira longa-metragem RIVER OF EXPLODING DURIANS com um elenco, um trabalho de câmera estática e formal, decidi ir inteiramente com câmera na mão enquanto brincava um pouco com o gênero thriller no meu filme seguinte, AQERAT. Depois, quando fiz MALU, o meu último filme, depois do AQERAT, certifiquei-me que faria coisas que não tinha feito nos filmes anteriores. É mais divertido para mim desta forma, aprender constantemente algo novo.

T. Consideraria a recepção dos seus filmes no estrangeiro como positiva?

E.Y. Sim, tenho muita sorte que a recepção dos meus filmes no estrangeiro tenha sido tão positiva. Por vezes até mais do que localmente :). Fui muito abençoado por poder viajar para tantos festivais de cinema em todo o mundo graças aos meus filmes, e conhecer audiências de diferentes formações culturais e afins. Acho muito interessante ouvir perspectivas e interpretações do meu trabalho, sejam positiva ou negativa.

T. O que significa para você ter sido o cineasta malaio mais jovem a ser selecionado pelo Festival de Cinema de Veneza?

E.Y. Foi em 2009 e eu tinha 25 anos. Fiquei absolutamente emocionado e honrado com a seleção do Festival de Cinema de Veneza. Foi algo que nunca esperei que acontecesse tão cedo. Ainda estava fazendo o meu mestrado em Tóquio e KINGYO foi um filme que fiz enquanto estudante. Mas o que realmente significava para mim era que tinha de ter cuidado e não me deter nas glórias do passado. Nessa altura percebi que não queria ser o tipo de pessoa que, dez anos mais tarde, ainda falaria sobre aquele belo feito que teve há dez anos. Prefiro ser grato pelo que me foi dado, e apenas canalizar a minha energia para a criatividade. É muito deprimente falar com pessoas que me falavam constantemente dos seus feitos de longa data. E o agora? E quanto ao futuro? Sou muitas vezes nostálgico, mas estou mais entusiasmado com o meu “próximo filme”, no qual quero sempre acreditar, é o meu “melhor”.

T.Você aprendeu algo com essa pandemia?

E.Y. Tivemos um lockdown por alguns meses durante a pandemia. Esses foram tempos difíceis. Fiquei com os meus pais e aproveitei o período para ver muitos filmes, tentando fazer uma média de pelo menos um filme por dia (juntamente com as séries de televisão e o anime que estou acompanhando). Filmes novos, velhos clássicos que me escaparam. Até fiz uma curta-metragem com alguns amigos atores no Zoom (que ainda estou editando). O que me espantou, durante o lockdown, foi ver a quantidade de trabalhos criativos realizados remotamente, as curtas-metragens Zoom, as reuniões de leitura do roteiro. Fiquei muito inspirado, penso que reforçou a minha convicção de que as obras criativas que fazemos, como filmes, música, literatura e afins, existirão sempre, por pior que esteja a situação no mundo. O que fizermos irá perdurar.

T. Como continuar produzindo?

E.Y. Tenho tido muitas reuniões online ao longo do mês com os meus produtores e escritores no Japão, para um filme que devemos gravar durante o final do ano. Não tinha a certeza absoluta se ainda podemos rodar o meu novo filme de acordo com o calendário, com a atual pandemia. Mas aqui, na Malásia e no Japão, as pessoas retomaram as produções (com uma equipe reduzida e o SOP necessário, claro). Mas a fronteira entre a Malásia e o Japão foi suspensa para viajantes de negócios há um mês, por isso posso voar para o Japão e começar os preparativos do meu novo filme. Parto dentro de poucos dias. Vamos ver o que vai rolar. Dedos cruzados.

Entrevista realizada dia 11 de Outubro de 2020.
Agradeço à Beatriz Maria que me ajudou adaptar a tradução.

 

Frame de Love Suicides Xin | 信 (2009)

 

Interview with Edmund Yeo

QUESTIONS:

T. As a filmmaker, what kind of narratives appeal to you the most? What do you prefer to tell?

E.Y. I’m usually attracted to narratives of any genre as long as they appeal to me emotionally and personally. I think this evolves and changes as I grow older, I’m sure what appeals to me now wouldn’t appeal to me 10 years ago, or what I made 10 years ago wouldn’t be something I want to do now. It’s just that in different stages of my life, I have different stories I want to tell. I just like to keep things truthful without being condescending towards my audiences.

For example, because my works are so personal and influenced by literature (many of my shorts and films are influenced by literary works), I have people asking me why am I not doing something more ‘popcorn’ or ‘commercial’. I have nothing against cinema of such sort. Like many Malaysian Chinese of my generation, I grew up watching Hong Kong action films and comedies, Hollywood blockbusters and Japanese anime. I went to the latest Avengers and Star Wars films last year on opening nights.  

One of my all-time favourite films is City of God. It’s not ‘just a gangster film’, but a cinematic masterpiece which explores an era in place so far away from my own country, of growing up in an environment of poverty and violence, of the passing of time. I first watched it when I was in university and I stayed with me. 

Perhaps stories that don’t stubbornly adhere to genre conventions are the films I want to make. It’s my way of rebelling quietly. 

T. What difficulties did you go through to become a filmmaker?

E.Y. There are a lot of challenges, over the years. The usual issues of scraping money together for your project, the constant fight against our draconian censorship. The lack of public support for local cinema made by filmmakers, or government funding going to the wrong projects. Financially, politically, culturally, it’s always a challenge trying to make films.

If your question is meant to be more ‘internal’, I say it’s more about trying to maintain this discipline to continue working. I always respect and admire prolific filmmakers, regardless of the quality of their output. because it just means that they are constantly working. When it’s so difficult to get my films made, how can I try to maintain this desire to create?

T. How do you see the current international market for independent artists?

E.Y. I say, the world is constantly evolving. From an optimistic point of view, audiences have more access to the works of international independent artists. Thanks to the rise of streaming platforms like Mubi, Netflix, Amazon Prime, it’s easy for anyone to access these works. There are much more different ways to share your works with the people. 

But if I want to be pessimistic, I can also argue that these works will remain undiscovered regardless of where they are when the mass audiences remain disinterested or underexposed to works from other countries. If you don’t know what to look for, it’s really hard to actually go and look for these works. That’s the tragedy. Are people becoming more curious about other works by independent artists? Are they willing to overcome the 1-inch barrier of subtitle? Or are they, regardless of the tools in their hands, and the information they can attain, remain conservative with their tastes? So the opportunities and possibilities are there. I’m not entirely sure whether people are curious enough.

T. Do you consider your work pertinent in the current social and cultural dialogues?

E.Y. Yup, I hope they are. This is also related to my first answer. I dont think as artists or filmmakers, we can ever live in a vacuum and let the world pass us by. So usually the films I make are definitely in response to however we are affected, at the time, by the sociopolitical situation of the world around us.

T. Do you have a list in mind of films that transformed you?

E.Y. As a kid, Hayao Miyazaki’s LAPUTA. As a teenager, CASABLANCA and Shunji Iwai’s LOVE LETTER. In university, once I am surrounded by like-minded friends, I am finally exposed to the works of Tarkovsky, the French New Wave, Stanley Kubrick, Almodovar, Fellini and, as I have mentioned, City of God by Meirelles, I say they heavily influence me by showing me the possibilities to cinema. So different from the films that I grew up watching in cinema. As a teenager, I never understood Wong Kar Wai’s films. The only one I enjoyed was CHUNGKING EXPRESS because it was funny. But after being exposed to all those films in university, I revisited Wong Kar Wai’s films and fell in love for the very time.

When Edward Yang died in 2007, I decided to start watching his films, his films too, opened my eyes.

T. What was the weight of the “experimental” in the construction of your thinking?

E.Y. It’s in my mind all the time. I like experimenting with form while telling the stories I want to tell, and I very consciously try to avoid repeating the same things in each film I made. I think it’s more fun this way. After the success of my short film KINGYO, many was hoping that I could make more films that are entirely in split screens, but I never wanted to repeat that again. After I made my very first feature film RIVER OF EXPLODING DURIANS with an ensemble cast, a static and formal camerawork, I decided to go entirely with handheld while playing a little with the thriller genre in my follow-up film AQERAT. Then when I did MALU, my latest film, after AQERAT, I made sure that I would be doing things I didn’t do in the previous films. It’s more fun for me this way, to constantly learn something new.

T. Would you consider the reception of your films abroad as positive?

E.Y. Yes, i’m very fortunate that reception of my films abroad had been so positive. Sometimes even more so than locally. 🙂 I was very blessed to be able to travel to so many film festivals around the world thanks to my films, and meet audiences of different cultural upbringing and such. I find it very interesting to hear their perspective and interpretations of my work, whether it’s positive or negative. 

T. What does it mean to you to have been the youngest Malaysian director to be selected by the Venice Film Festival?

E.Y. It was 2009 and i was 25. I was absolutely thrilled and honoured by Venice Film Festival’s selection. It was something I never expected to happen so soon. I was still doing my Masters in Tokyo and KINGYO was a film I did as a student. But what it really meant to me was that I had to be careful and not dwell in past glories. At that time I realized that I didn’t want to be the type of person who would, ten years later, still talk about that nice achievement he had ten years ago. I rather be appreciative of what I was given, and just channel my energy to creativity. It’s very depressing to talk to people who kept telling me about their long-ago achievements. What about the now? What about the future? I’m often nostalgic, but I’m more excited about my ‘next film’, which I always want to believe, is my ‘best’.

T. Did you learn anything from this pandemic?

E.Y. We had a lockdown for a couple of months during pandemic. Those were difficult times. I was staying with my parents and I used the period of time to watch a lot of films, trying to average at least one film a day (along with the TV series and anime that I’m following). New films, old classics that I’ve missed. I even did a short film with some actor friends over Zoom (which I’m still editing). What amazed me, during the lockdown, was to see the amount of creative works done remotely, the Zoom short films, the reunion script readings. I was very inspired, I think it reinforced my belief that works of creativity that we do, like films, music, literature and such, they will always exist, no matter how bad the situation is with the world. What we do will endure.

T. How to continue producing/working?

E.Y. I’ve been having a lot of meetings online over the month with my producers and writer in Japan, for a film that we are supposed to shoot during the end of the year. I wasn’t entirely sure whether we can still shoot my new film according to schedule, with the current pandemic. But over here in Malaysia and Japan, people have resumed productions (with a smaller crew and the necessary SOP, of course). But the border between Malaysia and Japan has been lifted for business travelers a month ago, so it’s possible for me to fly to Japan to begin preparation for my new film. I’m leaving in a few days. Let’s see how it goes. Fingers crossed.

Cheers, 
Edmund

 

Sobre o autor

Pernambucano sobrevivendo em São Paulo. Agora de máscara.

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