Ícone do punk rock, Black Flag faz show direto, reto e cru no Carioca Club

Ícone do punk rock, Black Flag faz show direto, reto e cru no Carioca Club

O show mostrou que as características principais da banda nunca morreram

 

Como uma banda que esteve no auge do seu sucesso há décadas pode, com uma formação bem diferente da época áurea, trazer para 2020 o clima que a fez ser reverenciada nos anos 80? O Black Flag, banda ícone do punk rock, teve a missão de responder a essa pergunta ontem, no show que fez no Carioca Club, marcando sua primeira visita ao Brasil. E quer saber a resposta que o grupo californiano deu em cima do palco? Foi essa: com um show direto, reto e cru, como deve ser um verdadeiro show de punk rock.

Conhecido por ser até hoje influência para outras diversas bandas de rock e por ter um dos logotipos mais difundidos e respeitados do punk rock, o Black Flag subiu ao palco do Carioca Club por volta das 20h30 e encontrou a casa razoavelmente cheia, mas longe de estar lotada. Formada atualmente pelo skatista multicampeão Mike Vallely nos vocais, Greg Ginn (fundador e único membro da formação original, de 1976) na guitarra, Joseph Noval no baixo e Isaias Gil na bateria, a banda não deu nem um “oi” para a plateia e já começou a cuspir suas músicas rasgadas e agressivas. “Depression”, “No Values” e “I’ve Had It” deram início ao longo setlist, que teve 23 músicas. Já nesse começo dava pra perceber que o vocal de Vallely é bastante condizente com a história da banda e lembra sim o vocal marcante de Henry Rollins, o vocalista clássico do grupo.

Foto: Drico Galdino

Criando um clima de “saudades do que não vivemos” – já que as músicas tocadas são todas de décadas passadas, de outras formações, e a banda nunca tinha se apresentado no país – “Black Coffee” (uma das mais cantadas pela plateia), “Fix Me”, “Gimme Gimme Gimme”, “Loose Nut” e “White Minority” foram as próximas pedradas executadas, sem quase nenhuma pausa ou momento de conversa entre banda e público. O “quase” é porque apenas quando Ginn começou um coro em homenagem a Vallely – e foi seguido pelo público, que gritava “Mike! Mike! Mike!” – e quando o vocalista apresentou cada membro do quarteto é que se ouviu a voz dos dois.

A todo momento, dava pra ver o brilhante entrosamento que a banda tinha entre si e a alegria de cada um em estar fazendo o que gosta. Ginn, por muitas vezes, soltava sorrisos quase de orelha a orelha manejando sua guitarra. Mesmo mais discretos, Noval e Gil – os menos conhecidos do quarteto – também pareciam crianças com seus brinquedos favoritos nas mãos.

Foto: Drico Galdino

Voltando ao setlist (que você confere na íntegra mais abaixo), o primeiro álbum do grupo, “Damaged” (1981), foi predominante, com sete músicas. Como destaque, dá pra citar sem medo de errar a sequência final, composta pelas mais queridas dos fãs: “Nervous Breakdown”, “TV Party”, a chiclete (e sensacional) “Rise Above” e “Louie Louie”, que foi executada em versão estendida, extremamente trabalhada na parte instrumental, com direito a Ginn solando na guitarra. Sinceramente, acho que faltou apenas “My War” pra banda tirar um 10 no quesito “setlist”, mas com os problemas de dissidência que o Black Flag enfrentou ao longo dos anos e que geraram alguns atritos com ex-membros, não sei se Ginn tem o direito legal de tocar todas as músicas da discografia hoje em dia.

Assim, ao final de “Louie Louie”, sem dar “tchau” para a plateia, o Black Flag saiu de cena da mesma forma que entrou: mudo. Porém, cumpriu muito bem o seu papel dentro do que podia fazer, mostrando a agressividade e a crueza que fizeram há cerca de quatro décadas o nome “Black Flag” se tornar uma marca e matando as “saudades do que não vivemos” que os fãs brasileiros guardaram por anos.

Setlist do show do Black Flag em São Paulo (foto: Drico Galdino)

 

Foto de topo: Piero Paglarin

Sobre o autor

Publicitário, especializado em Marketing e Comunicação Integrada. Amante da vida, encantado por pessoas e suas singularidades. Fã inveterado de filmes de terror, ouvinte assíduo de música jamaicana e rock pesado. Vive uma relação de amor e ódio com São Paulo. E, claro: Vai, Corinthians!

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