Estamos desaprendendo a conversar no metrô

Estava voltando do trabalho. Saindo da Paulista, peguei a linha verde e comecei a atravessar aquele corredor interminável e lotado em direção à linha amarela. Era um dia ligeiramente frio, mas dentro da Via Quatro estava quente. É claro… Um buraco no chão com centenas (milhares?) de pessoas indo e vindo era quase o inferno.

Sempre que estou naqueles túneis imensos com esteiras rolantes, fico pensando que aquilo parece um cenário pós-apocaliptico. Imagino o clichê de sempre: a raça humana foi quase exterminada e agora todo mundo vive debaixo da terra. Aqueles são os últimos sobreviventes da espécie e trabalham em conjunto para sobreviver. Sim, eu viajo.

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Foto: Márcio Pinho/G1

Final de expediente. Das 5 às 7 horas aquilo é um inferno. Pessoas solitárias cercadas por outras centenas de pessoas solitárias. A maioria com fones de ouvido, uns ignorando os outros… Passando por rostos que você vê, mas não enxerga.

São Paulo é um lugar não muito romântico, na maior parte do tempo. É claro, existe amor em SP, mas não sempre, não em todo lugar, não com todas as pessoas. A maioria ouve sua música, conversa no whatsapp ou joga Candy Crush. Uns ao lado do outro, jogando o mesmo jogo, ouvindo as mesmas músicas… E incapazes de comunicar-se.

Não estou criticando. Várias vezes vi pessoas lendo livros que adoro e imaginei como seria uma conversa. Oi, com licença. Percebi que você está lendo a Guerra dos Tronos, bem… Acha que o Jon Snow vai sobreviver até o final? Mas nunca cheguei aos finalmentes. Talvez um dia eu escreva um bilhete com vários spoilers, dê para a pessoa e corra na próxima estação.

Nós não gostamos de nos socializar. Quando aquela velhinha simpática puxa assunto no ônibus, não queremos conversar. Eu não quero, pelo menos. Respondo com educação, é claro, mas não quero conversar do Terminal Parque Dom Pedro até o Itaim Paulista com uma senhorinha.

Com esses pensamentos terminei de andar aquelas esteiras elétricas. Adoro as esteiras, mas com o acúmulo de usuários, acaba sendo ainda mais lento que ir andando. Sempre faço uma competição interna com alguém que decidiu ir andando pela esteira ou pelo método tradicional. Às vezes ganho, às vezes perco.

Finalmente cheguei à linha amarela em si. Uma pequena multidão aguardava o próximo trem e fiz o mesmo. A maioria tirou as mochilas das costas quando as portas se abriram e todos começaram a entrar. Eu fui me esgueirando mais para o fundo porque sabia que conseguiria descer na próxima estação, independentemente de quanto estivesse no fundo.

Ainda estava procurando um ponto de apoio quando as portas fecharam e o trem começou a se mover. Eu me desequilibrei e estiquei a mão para frente, quase batendo em um cara. Me deparei com um rapaz de cabeleira vermelha me olhando. Pela primeira vez no trajeto Paulista – vagão eu estava olhando de verdade para a cara de alguém. Por quantas pessoas eu já tinha passado? wesley Eu abaixei a cabeça um instante e larguei a mochila no meio dos meus pés. Poderia puxar conversa, mas o que dizer? Falar sobre o tempo? Falar sobre o metrô? Falar sobre…? O quê? Olhei novamente para ele, ele olhou novamente para mim. Será que minha cara está suja?, pensei. Me olhei no reflexo do vidro atrás dele. Não. Olhei pra ele, desviei o olhar. Pensei em escrever um texto a respeito daquela situação. Pensei em como começar o texto e em como terminar… Pensei em dizer “Oi”, mas não disse. Por que? Não sei.

Olhei pra ele, ele olhou pra mim, desviei o olhar e ele também. Peguei de volta a mochila nas mãos.

A estação República chegou. Eu desci, ele não.

Gabi Leão é estudante de jornalismo, veterinária frustrada e pseudo-escritora. Já quis ser detetive, salvar o mundo e fugir com o circo. Não fez nada disso (ainda).

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