(In)segurança paulistana

(In)segurança paulistana

Ontem de noite vi um casal sentado na calçada. “Como é que eles têm coragem?” perguntei para minha mãe, que estava comigo dentro do carro. Ela ficou olhando para a minha cara sem entender bem o que eu queria dizer. “Alguém pode vir assaltar, o cara pagar de herói e levar um tiro!” expliquei.

Acho que nos segundos que se passaram, minha mãe se arrependeu de ter criado sua única filha em uma cidade como São Paulo. Ela cresceu aqui também, mas há 40 anos, a cidade era bem diferente.

Já fui assaltada uma porção de vezes. A primeira vez alguém entrou no quintal e levou tudo de valor (que não era muito). Da segunda vez, ladrões invadiram a minha casa e levaram tudo (exceto a geladeira e os móveis). Depois disso, arranjamos um cão de guarda… E algum tempo depois, meu cão de guarda foi envenenado (sobreviveu por sorte). Ah! Também teve a vez que invadiram o sítio da família e levaram tudo (até as cervejas que estavam na geladeira).

Em nenhum dos casos os ladrões foram pegos.

Depois disso, mudamos de casa para um apartamento. Ok, me sinto mais segura dentro de casa, mas a partir do momento que coloco os pés na rua, sinto o mesmo drama de sempre. Qualquer um que se aproxima é uma possível ameaça.

Isso está se tornando uma praga na nossa sociedade.

Eu tenho uma conhecida que andava com celular na mão, bolsa aberta e tudo mais… Um dia foi assaltada. O cara passou, pegou o celular dela e correu. Simples, sem terror… E agora essa minha conhecida anda por aí com olhos arregalados, desconfiando de cada sombra.

Já anotou o IMEI do seu celular em um lugar seguro? Agora é possível bloquear o aparelho roubado se você tiver o número do IMEI. Para descobrir o número é só digitar *#06# e um número enorme vai aparecer na sua tela.

“Se eu não tenho, o ladrão também não vai ter”. É um pensamento absurdo, não? Já aceitamos de que, de um jeito ou de outro, é provável que vamos ser assaltados. Anotamos o IMEI, mas continuamos andando com o celular no bolso e rezando para nenhum ladrãozinho nos considere uma presa fácil.

Somos uma geração que avalia riscos antes de sair de casa. “Uma festa, mas onde? Que horas vamos e que horas voltamos? Tarde? Então é melhor nem levar a carteira” ou então “Ah, vou guardar o dinheiro na meia“. Sim. Chegamos ao fundo do poço. Guardar dinheiro na meia! Isso é uma vergonha.

Mas o que eu disse não é nenhuma novidade (certo?).

Sobre o autor

Teve a ideia de criar o Sobreviva em São Paulo, foi lá e fez. Jornalista, trabalha com social media e gosta de uns rolês roots. Acampa no mato, sobe montanha e vive na selva de pedra. Já quis ser detetive, salvar o mundo e fugir com os ciganos. Tem uma relação de amor e ódio com São Paulo, fica para ouvir músicos de rua e corre para nunca chegar atrasada.

Comentários

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4 Comments on this Post

  1. É complicado ler comentários como ” Eu ainda tenho que ler que assaltante é vítima. Fala sério…” ou “Você acredita que é possível dialogar com uma arma apontada para a sua cabeça?”, bom isso foi bem radical e sabemos que não precisa falar durante um assalto mas que tal falar com os futuros assaltantes. Acredite você sabe quem são eles.
    Vamos usar a empatia (capacidade de se identificar com outra pessoa, de sentir o que ela sente, de querer o que ela quer, de apreender do modo como ela apreende), se você usa-la um pouco vai perceber que a pessoa que assalta a sua casa é a mesma pessoa que não tem uma casa, a pessoa que rouba seu carro que você trabalhou tanto pra conquistar é a mesma que não teve a oportunidade de ter um trabalho. Onde quero chegar, nem todo mundo nasce com as mesmas oportunidades, uns com muita e outros com pouca, acredite outros com nenhuma. Talvez se nós preocuparmos mais com a educação do próximo ao invés do só se preocupar consigo mesmo seja o caminho. Observa que a questão de poder conseguir seus méritos “sozinho” (entre aspas pois ninguém consegue nada sozinho) seja algo para ser passado para frente como um pensamento de motivação e não um motivo para nós acharmos superior ao próximo. Que irá para o mesmo lugar que você depois do GAME OVER. Bom, do que adianta trabalhar tanto no seu próprio EU sendo que onde você vive não é um lugar exclusivo para VOCÊ e sim um lugar compartilhado por outras pessoas, fazendo esse tal lugar ser um lugar para NÓS e não apenas um lugar para MIM ou para VOCÊ. Que fique claro que não estou inocentando ninguém depois de ter cometidos seus atos mas possamos parar com esse tal pensamento normalizador, de que as coisas são do jeito que são e não há nada que possa ser feito. Esperamos mudança do mundo e não nós mudamos, engraçado não? Aceitamos as informações de que todos temos todos as mesmas oportunidades e aqueles que seguem por fazer o errado é por conta própria. Bem, se você quiser mesmo saber vai ver que não é bem assim a história. Vá as ruas, veja e ouça o que os supostos ladrões que a TV tanto falar por acaso são aqueles mais necessitados, ou será que não é por acaso. Enfim, se colocar no lugar de uma pessoa é uma atitude bem difícil pois nunca passamos por aquilo de verdade então não tivemos a experiencia então não sabemos como é. Mas ao ouvir essa pessoa que lhe conta a história dela, o motivo de seguir esse ramo de vida (ladrão), vai ver que ela nunca preferiu está ali e todos os exemplos que podia ter feito a diferença na vida dela…bom, ela nunca teve. Eu pelo menos quando me ponho no lugar dela vejo que ela acha tudo aquilo é normal e não vê outros caminhos, porque ela foi ensinada assim. Vejo que ela foi vitima de algo bem pior do que perde os pertences materiais , ela perdeu a expectativa de vida. Resta a mim faze-la enxerga uma, já que fui presenteado com uma (expectativa de vida).

  2. É difícil concordar com o seu argumento Marcelo, pois esse é uma problema recorrente na sociedade mundial.
    Realmente você acredita que fazer um seguro é a melhor solução?
    Acredito que isso sim é uma ideologia ultrapassada, a do conformismo!
    Você acredita que é possível dialogar com uma arma apontada para a sua cabeça?

    Então faço apenas uma correção ao seu comentário: Não são só os paulistas e demais brasileiros que são desatentos, é o mundo todo!

    E me desculpe esse tipo de atitude não é o único meio para sobreviver, só se for no seu mundo, por que no meu não!

  3. É… Quando a pessoa é assaltada três vezes na residência, roubam todos seus pertences, o carro que vc trabalhou tanto pra conseguir, tiram se anel de formatura do dedo que representava todo o esforço para consegui se formar,ameaçam vc e sua família, jantam na sua casa, tomam seu refrigerante, urinam no seu banheiro, e você o tempo todo ameaçada com uma arma na presença de três assaltantes armados com uma filha adolescente dentro do quarto… Eu ainda tenho que ler que assaltante é vítima. Fala sério…

  4. quem cria o ambiente propício ao assalto é a população, a sociedade. O assaltante é vítima, e não agressor, da falta de atenção dos paulistas e demais brasileiros. Que ao invés de procurarem por representantes com políticas afirmativas, se escondem atrás de políticas e ideologias como a citada no texto.
    Quanto mais você temer, mais razão para temer você terá. Agora quando você abre sua cabeça ao diálogo vai poder sentar na calçada, ou aonde quiser. Vai entender que o assaltante não é um psicopata, o rapaz, ou moça, que rouba e foge, foge sem olhar na cara porque tem consciência de que aquela atitude é a única que lhe resta para sobreviver. Porque essa pessoa quer sobreviver e não morrer de fome e o assalto é a única alternativa que o resta, justamente porque pessoas como você saem com medo na rua, passam o pre-conceito inconsciente todas vez que recaí os olhos sobre alguém ‘suspeito’.

    Se está com medo que roubem-lhe o celular faça um seguro, não compre uma ideologia do século passado.

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